Propaganda e catequese

Parcela considerável da opinião pública ainda é favorável ao Rodoanel Mário Covas como hoje ele se coloca à população de São Paulo. Até mesmo em círculos considerados a elite pensante do país a opinião é reveladora: o Rodoanel vem sendo visto como altamente benéfico para a população!

 
Não é por acaso. O Poder Público elaborou uma bem montada campanha para vender este empreendimento como medida de salvação, ou seja, que resolverá o problema do congestionamento da cidade e, ao mesmo tempo, livrará o cidadão dessa poluição sufocante.  Mas, como se pode concluir, tais afirmações não se sustentam. Nem o trânsito melhora, nem a poluição diminui. Já as cidades “beneficiadas pela passagem do Rodoanel” - como indica texto do Programa de Educação da Dersa em sua catequese – terão seu “progresso” incrementado.  Na verdade, as cidades vizinhas crescerão – em geral desordenadamente – ampliando a mancha urbana de São Paulo cujo crescimento já é patológico. No município de Caieiras, onde termina o trecho Oeste, (foto acima) as conseqüências da presença do Rodoanel se fazem sentir. Segundo os moradores, o tráfego de veículos na cidade aumentou muito.
Moldando a opinião pública
Será, então, eticamente correto este discurso do Governo? E será que o projeto do Rodoanel corresponde na verdade à melhor proposta técnica até mesmo para os moldes da estreita visão rodoviarista?
O que se vê é que a população tem sido bombardeada por uma operação de marketing competente (há que se reconhecer), mas que atropela a ética e faz crer que se trata de um caso característico de crime tipificado como propaganda enganosa e falsidade ideológica. 
Em artigo intitulado “Cidade de mentirinha ou propaganda enganosa?” na edição de fevereiro de 1999, o Jornal da Serra da Cantareira já apontava a manipulação da opinião pública. A matéria vinha ilustrada por um cartaz da Dersa que circulou em escolas e empresas mostrando, em desenho de Gepp e Maia, uma São Paulo alegre e descontraída. Ao fundo, o trecho do Rodoanel na Serra da Cantareira cortada por túneis verdejantes, onde circulam inocentes veículos que lembram carrinhos e caminhõezinhos de brinquedo. Este cartaz encantou muita gente.

É preciso estar atento e com espírito crítico ao que se divulga sobre o Rodoanel. Em suas instâncias federal e estadual o Governo distribui farto material exaltando sua excelência e induzindo a população a um pré-julgamento favorável. Tal atitude se choca com o espírito da Resolução CONAMA nº009, de 03/12/1987, em particular com seu Parágrafo 1º, que trata das "audiências públicas" obrigatórias, onde a população se manifesta sobre a obra que vai afetá-la, legitimando ou não o processo.

Esta população tem sido cumulada por uma propaganda poderosa, milionária. Já os questionamentos contrários não encontram espaço para se exprimir com a mesma força e intensidade. E sabemos do poder da mídia na manipulação dos desejos, expectativas e frustrações das massas, o que torna viciadas "a priori" as "audiências públicas".


Liberdade de imprensa e liberdade de empresa
 O Poder Público não tem colocado para a população de forma democrática e transparente informações objetivas e verdadeiras sobre os "prós" e "contras" da obra. Aliás, este questionamento coincide com a moderna corrente do pensamento jurídico. Nas palavras do jurista Fabio Konder Comparato, professor da USP, não se pode confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa! No livro “A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos”, de 1999, ele escreve: "A comunicação de massa é explorada e dominada pelo Estado ou por organizações empresariais, que moldam em grande parte a opinião pública. Criou -se, com isto, uma lamentável confusão entre liberdade de imprensa e liberdade de empresa. 

A lógica da atividade empresarial no sistema capitalista de produção funda-se na lucratividade, não na defesa da pessoa humana". Mais adiante, ele acrescenta:"Constitui uma aberração que os grandes conglomerados do setor de comunicação de massa invoquem esse direito fundamental à liberdade de expressão, para estabelecer um verdadeiro oligopólio nos mercados, de forma a exercer, com segurança, isto é, sem controle social ou popular, uma influência dominante sobre a opinião pública".