Rodoanel: discurso oficial distante da verdade dos fatos

Costuma-se dizer que o Brasil tem a legislação ambiental mais avançada do mundo. Mas não tem quem a faça cumprir com o devido rigor. Também dizem que o Rodoanel, a maior obra pública em andamento no país, respeita o ambiente e a legislação ambiental e vai resolver os problemas de congestionamento e poluição em SP. Nem tanto.
Nesta edição especial o Jornal da Serra aborda o Rodoanel como um todo, destacando o polêmico trecho Norte. Com transparência, diferente do que vem ocorrendo no discurso oficial, que se serve da máquina publicitária para fazer o cidadão comum acreditar que esta obra faraônica – já orçada em R$8 bi – irá solucionar os problemas de congestionamento e poluição na cidade de São Paulo. Quando se compara seu custo financeiro e ambiental com
a insignificância da solução (aliviará em apenas 13% o tráfego das marginais e estará obsoleto em 6 anos), vê-se que a propaganda oficial carrega na maquilagem para disfarçar inúmeras e graves imperfeições.

 Trânsito em São Paulo
 Além deste, há outros aspectos fundamentais. Um deles é o modo como o Poder Público vem interpretando a Lei para alcançar seu objetivo. Tem, por exemplo, apresentado uma visão fragmentada da obra sem mencionar seu impacto global sobre a população e seu ambiente, o que não é correto segundo a legislação em vigor.  Mas agora você vai ver o quanto o Rodoanel pode agredir o ambiente, as pessoas e mesmo o seu bolso ao onerar os orçamentos do Estado e do País - cuja conta afinal nos caberá pagar – pondo em risco até a ordem econômica nacional, já tão raquítica. É impressionante como as cifras dessa obra viária sofreram uma escalada vertiginosa, mas quase ninguém prestou atenção. Finalmente, quando a sociedade civil questiona a racionalidade desse processo, depara-se com obstáculos de todo o tipo e com a prepotência das autoridades públicas, que tratam o problema com fingida inocência ou com desdém. Nelas não se pode admitir hoje ignorância a respeito da questão ambiental em nível planetário. 
É preciso mudar o rumo, mudar o pensamento até agora voltado sobretudo para produção e consumo (onde prevalecem os ganhos financeiros).
É preciso cuidar, porque senão os recursos se esgotam – e a água é um dos essenciais. É aqui também que o Rodoanel pega, mas os interessados em sua construção não revelam.
Como se comportarão os novos Governos?

A questão do Rodoanel também ganhou contornos internacionais, já que o Governo vem buscando empréstimos no exterior, junto ao BID e o BIRD, por exemplo, cujos critérios consideram com relevância os impactos ambientais e rejeitam obras depredadoras. E, por mais que se tente dissimular, não dá para esconder que o traçado do Trecho Norte Rodoanel atropela áreas sensíveis da Serra da Cantareira e da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo. O mesmo acontece com o Trecho Sul, também em área de mananciais.

 Reservatório e Parque Estadual do Juquery

 Não somos apocalípticos – embora a visão da passagem do Trecho Norte pela Serra e mesmo a do trecho Sul se afigurem assustadoras – nem nos detemos só em fatos negativos vaticinando previsões pessimistas; também mostramos como os cidadãos mais esclarecidos se articulam para exigir transparência no processo. E ainda nos sentimos na obrigação de sugerir aos governantes que ampliem sua visão de mundo para serem mais conseqüentes nos projetos e na execução de suas políticas públicas. O Brasil se comportou bem na Conferência Mundial para o Desenvolvimento Sustentável; nossos governantes precisam fazer a mesma boa figura quando se trata de assuntos internos.
Aqui fica aos novos governantes estes desafios: informar com transparência os cidadãos sobre esta obra tão polêmica que é o Rodoanel sem minimizar os impactos que causará até à própria cidade de São Paulo e em seus habitantes. Admitir que seu custo é alto demais -- e já se revela fora de controle. Finalmente, repensar o Rodoanel como um todo. Sem ganância, sem tecnocracia, sem fingida ignorância.  Sem manipulação. Esta obra faraônica deve ser mostrada de cara limpa – que tal um plebiscito?  É um bom exercício de plena democracia – para que prevaleça a vontade do cidadão depois de melhor informado sobre os prós e contras de um empreendimento bilionário que, entre outras graves conseqüências, acabará por endividar ainda mais o nosso país.