São Paulo: cidade sustentável ou insustentável?

Do modo como foi concebido o Rodoanel provoca no organismo vivo da cidade um trauma profundo que precisa ser meticulosamente estudado à luz da moderna ciência ambiental, o que não está acontecendo. É indispensável analisar os elementos bióticos e abióticos do meio – e a legislação o exige – mas, sobretudo, deve ser analisado o balanço de matéria e fluxos de energia envolvidos nesse processo de profundas transformações. Isso quer dizer o seguinte: é preciso estudar as relações bio-geofísicas e bio-geoquímicas dentro do conceito de cidade como organismo vivo. 


Menos vegetação, menor qualidade de vida  

Naturalmente os delicados mecanismos responsáveis pela manutenção da qualidade de vida da cidade e de seus habitantes devem ser a tônica principal: o que a construção do Rodoanel significa em perda de tecido verde, em maior aquecimento da cidade, aumento das enchentes, desequilíbrio no lençol freático, agravando a crise no suprimento de água que afeta a cidade, a contaminação da água, a sanidade vegetal e humana devido a mais altos níveis de poluição do ar, do solo, das águas superficiais e subterrâneas, a destruição da biodiversidade e agressão à própria comunidade humana. O Rodoanel virá agravar um desequilíbrio já preocupante. Neste começo de século, o modelo rodoviarista do Rodoanel não se sustenta, pois agride a racional ocupação e uso do solo da Metrópole e, em última análise, é contra a qualidade de vida de seu habitante buscada pela Reserva da Biosfera.  
Entre 1986 e 1999 o município de São Paulo destruiu 30% de seu tecido verde, segundo levantamento da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente . Em nível internacional, o nº de área verde por habitante é um índice de qualidade de vida. Ao se retirar a natureza, substituindo-a por uma "segunda natureza", fortemente degradada pela ação do ser humano, a saúde físico-mental do cidadão se vê afetada. Na teoria todo mundo sabe que a função das áreas verdes na descontaminação do ar é fundamental. Na prática, porém...  

    O gráfico publicado no jornal O ESP - 27/05/01 revela que já naquela data restavam na cidade de São Paulo apenas 5% da vegetação existente na época de sua fundação. Entre 1986 e 1999, ou seja, só em 13 anos, mais 30% da cobertura vegetal do município foram devastados, inclusive na Serra da Cantareira. A despeito das leis de proteção. O mais grave: a devastação continua no entorno do Parque, e o Rodoanel exacerbará este quadro, contribuindo ainda mais para o crescimento desordenado de São Paulo.  
Apresentado como novo vetor de desenvolvimento, na verdade o Rodoanel reforçará e acentuará esta tendência ecocida. Já na sua construção - Trecho Oeste – as fotos são traumáticas e ressaltam o distúrbio nos componentes naturais e humanos do meio. Um detalhe: quando a equipe do Jornal da Serra estava em campo, no Lote 6 do Trecho Oeste, foi advertida por um funcionário do DER: “é proibido fotografar”. (!) 
Confirmação indiscutível das irregularidades cometidas na construção atropelada do Trecho Oeste, por exemplo, é a circunstância de ter sido iniciado sem o competente EIA/RIMA nas condições legais e com as conseqüências hoje denunciadas pelos Tribunais de Contas, do Estado e da União, e pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal, além de uma CPI na Assembléia Legislativa.    

lhas de Calor na Metrópole : fenômeno que se amplia  
 Está cientificamente comprovado que a cobertura vegetal do Cinturão Verde da Cidade é poderoso estabilizador do clima na medida em que controla a expansão das ilhas de calor do centro em direção à periferia. As ilhas de calor são geradas pela total degradação ambiental, substituindo-se a vegetação por edificações, pelo concreto, pela impermeabilização do solo, o que intensifica a geração e emanação de calor.
Foto Celso Heredia/Arquivo JS - Entorno do Pq da Cantareira: em 2000 aqui só havia floresta  
Nos últimos anos estamos perdendo tecido verde de forma significativa, e o levantamento realizado pela municipalidade em São Paulo é inquestionável em si e como indicador dos demais municípios. A Fundação SOS Mata Atlântica, através de levantamento próprio, reforça esta afirmação. Não resta dúvida que o Rodoanel, uma ferida imensa no Cinturão, ampliará este fenômeno, induzindo a mais destruição em seu tecido verde. E, conseqüentemente, contribuindo para o aumento das ilhas de calor.  
Esta afirmativa consta do EIA/RIMA do Empreendimento (379.410 m² de vegetação destruída) e no Parecer da Faculdade de Saúde Pública da USP: “Com relação à geração das ilhas de calor, os trabalhos colocam que a urbanização metropolitana é quem gerou e vem gerando estas ilhas de calor, o que de fato é verdadeiro, porém não há como isentar-se de colaborar com este  processo devido à  urbanização prevista em seu  entorno”. 
É a cidade como centro de energia que está em questão: mais energia para sustentar novas atividades humanas e para dar conforto térmico ao aglomerado humano que aumenta cada vez mais! Cientistas já vêm alertando: neste novo milênio São Paulo poderá chegar a temperaturas de mais de 40° C se a todos estes fatores se juntarem os já conhecidos do "efeito estufa". É um ciclo vicioso: mais energia...  

Todas estas reflexões, comprovações e evidências científicas têm sido até agora desprezadas pelo pensamento tecnocrata, que coloca o avanço tecnológico como principal condição de felicidade. Está na hora de se colocar em discussão a continuidade de seu modelo energético perdulário, de suas formas de sobrevivência - entre elas o rodoviarismo - que depredam a natureza; está na hora de repensar o modelo de uma cidade já supersaturada e de se deter mais sobre o conceito de aglomerado urbano sustentável. Que a crise energética que vivemos sirva para reflexão sobre a insustentabilidade desse modelo depredador que estimula o consumismo e a artificialidade. Sob tal modelo promovemos uma contradição: arrebentamos os mecanismos naturais que regulam o clima e depois os grandes monopólios nos vendem tecnologias caras e pouco eficazes para atenuar problemas e crises que poderiam ser evitadas pelo manejo criterioso e sábio dos recursos naturais.

 
Rodoviarismo: depredatório e insustentável
Rodoanel agrava crise do abastecimento de água 

O traçado do Rodoanel atravessa uma riquíssima rede de drenagem, bastante sensível e vulnerável, que compõe o sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de SP e que já atinge seu ponto crítico. 
Somente o Trecho Oeste intercepta 51 cursos de água, e o desenvolvimento de toda a obra compromete as represas Billings e Guarapiranga exigindo, inclusive, uma análise minuciosa do problema do transporte das cargas tóxicas. No Trecho Norte, uma das alternativas propostas (antes denominada “intermediária” e agora "Norte Superior") atropela áreas sensíveis no entorno do Reservatório do Juquery (região da Cantareira). Esta represa é a mais próxima de São Paulo no conjunto das represas que formam o Sistema Cantareira que, por sua vez, abastece mais de 50% da região metropolitana.

    Paiva Castro: capacidade comprometida

No outono de 2001 o Reservatório do Juquery esteve com 41% de sua capacidade real como informou o Jornal O ESP em 17 de abril, baseando-se em dados  fornecidos pela Sabesp. Na época de maior estiagem, no inverno, chegou a apenas 14% de sua capacidade. Segundo a “alternativa Norte Superior” do Trecho Norte, que cortaria a Serra impiedosamente, as pistas passam sobre o último canal a céu da aberto do Sistema Cantareira antes da estação de tratamento. Não estarão colocando em risco a delicada artéria aorta da cidade? Além do impacto causado pela obra em si, ela também induz a intensa urbanização, controlada ou espontânea. As conseqüências todos conhecem, mas desconsideram: maior impermeabilização do solo intensificando-se o escoamento de água superficial e a erosão do solo descoberto de sua vegetação, aumentando a sedimentação, que irá entupir a calha dos rios e provocar distúrbio na recarga dos lençóis de água. 

Canal da Paiva Castro: artéria aorta de SP
Isto é clássico e ocorre na cidade de SP, mas os Estudos de Impacto Ambiental oficiais não levam em conta o aspecto da cidade como organismo vivo, numa perspectiva realmente holística -  a  mais ampla e profunda do conceito de Sustentabilidade.  

São Paulo vem experimentando um fenômeno que merece atenção cuidadosa não só dos especialistas: as chuvas têm sido torrenciais e catastróficas na mancha urbana, mas nas cabeceiras dos mananciais, onde precisa chover, não chove!  
Técnicos do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) e do "Climatempo" afirmaram que há fortes evidências científicas de que as ilhas de calor da metrópole superaquecida são responsáveis pela alta precipitação no centro da cidade. Ou seja: a metrópole atrai muita chuva, e elas são cada vez mais fortes, gerando mais e maiores inundações. Em contraposição, no Cinturão Verde, cujas temperaturas são mais amenas, chove menos, justamente onde se situam as cabeceiras e mananciais. O desequilíbrio é evidente. O Rodoanel contribuirá para ampliar as ilhas de calor, acentuando este desequilíbrio. Historicamente, não se tem buscado um uso criterioso do recurso natural água, que já se reconhece como escasso, adotando-se uma postura de economia e zelo pelo que existe. Ao contrário, a mentalidade e a práxis ainda são perdulárias, e o Rodoanel se insere nesta ótica, reforçando-a.  
Não podemos nos esquecer do poderoso lobby das empreiteiras e incorporadoras imobiliárias, que têm especial simpatia pela obsolescência planejada. Por exemplo, esta idéia já tem defensores: no momento em que nossos mananciais fracassarem, a "grande saída estratégica" será buscar água na Bacia de Eldorado, Vale do Ribeira, a uma distância de 100km da Capital e a um custo mínimo de 10 bilhões de dólares!  
População e responsáveis pelas políticas públicas devem se pronunciar claramente se desejam continuar privilegiando este modelo esbanjador e ecocida do qual o Rodoanel é o grande Cavalo de Tróia.  
Não se esqueça: rompemos inconseqüentemente delicados mecanismos naturais que mantêm o equilíbrio climático e hídrico e depois pagamos caro por tecnologias curativas ou paliativas.  

Rodoanel e as enchentes em SP

O fenômeno das enchentes na região de São Paulo tem origens conhecidas: inicialmente os rios perderam suas várzeas para a ocupação humana. Em seguida vieram a remoção da cobertura vegetal primitiva (que prossegue em ritmo acelerado segundo dados oficiais), impermeabilização do solo, aumento da quantidade de chuva na mancha urbana, alteração no regime das chuvas que antes eram mansas e “criadeiras” e agora são torrenciais, em forma de tempestades magnéticas, de chuva ácida, com relâmpagos, coriscos e granizos. Ou seja: menor infiltração da água no solo, agora impermeabilizado, e maior quantidade de água em menor tempo,– a água busca a rede de drenagem com maior velocidade; aqui segue a potencialização do fenômeno enchente, pois estes rios sofreram profundas modificações e desequilíbrio, com as clássicas retificações, canalizações e muitas vezes "sepultamento" (emparedamento total). E a lama que vem do solo exposto entope sua calha. A tecnologia clássica que nos vendem, curativa ou paliativa, também já é conhecida: barragens reguladoras, aprofundamento do leito dos rios, que no caso do Tiete já custa mais de U$$ 100 milhões e ainda não está concluído, retirada de 300 caminhões/dia de sedimentos do leito desses rios a um custo de R$ 19 milhões/ano; e construção de piscinões a R$15milhões cada.
Visto da Cantareira raio atinge São Paulo

Para minorar as enchentes se calcula a necessidade de mais uma centena desses piscinões em São Paulo. A cidade vive um contra-senso. Levantamentos oficiais calculam em R$ 9 bilhões o custo para controlar suas enchentes.  Um custo de grandeza próxima ao do Rodoanel. Numa administração realmente democrática do espaço urbano e onde prevalecessem os princípios do “orçamento participativo”, o cidadão deveria poder optar: Rodoanel ou fim das enchentes!  
Apenas na fase de construção, o trecho Oeste do Rodoanel foi responsável pela remoção de 16.145.000 m³ de terra. Hoje se sabe que o distúrbio no solo foi maior que o previsto e aprovado.  
Há uma relação direta entre remoção do verde, impermeabilização da bacia de drenagem e impedimento ou bloqueio de infiltração das águas. Em outras palavras: menos tecido verde, mais piscinões. O exemplo clássico está na bacia do córrego Aricanduva, afluente do Tietê, com 30 km de extensão, localizado na zona Leste da capital. Em 1995 os órgãos técnicos do Governo Municipal identificaram a existência de 12 milhões de metros quadrados de áreas verdes ou livres na área de influência dessa bacia e indicaram 5 piscinões para reter um milhão de metros cúbicos de água. Em 1999 essas áreas verdes e livres estavam reduzidas à metade, isto é, a 6 milhões de metros quadrados. Resultado: mais 8 piscinões na bacia do Aricanduva, totalizando 13 obras desse tipo na região, segundo o Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, do Governo Estadual (em matéria publicada no OESP de  25 de janeiro de 2001). Mas as enchentes continuam.
Não há como negar que o Rodoanel ampliará a mancha urbana, induzindo seu superaquecimento e, portanto, induzindo a mais chuva anormal, a sobrecarga da matriz energética já sobre-saturada, impermeabilização do solo, distúrbios nos mecanismos hidrológicos naturais, rompimento dos delicados mecanismos naturais, potencializando o fenômeno das enchentes. O EIA/RIMA de todo o trecho precisa detalhar esta dinâmica. E, mais que tudo, deverá dizer se terá seqüência este modelo perverso de ocupação de solo, já que os municípios não tiveram tempo de adaptar seus Planos Diretores ao traçado do Rodoanel. O que também fere a Lei. Outros, como Mairiporã, nem elaboraram seu Plano Diretor e estão vulneráveis a mais desordens ainda.

    Aumento da contaminação do ar 

Soa falsa e temerária a propaganda oficial perigosamente segura de si - "Vamos Tirar São Paulo do Sufoco" e similares - prometendo a limpeza do ar da cidade. Na realidade, a contaminação do ar, em particular no centro densamente urbanizado, será levada para áreas de maior pureza ambiental, justamente aquelas onde se desenvolverá o traçado do Rodoanel, o que é contrário ao que determina a legislação específica e fere os princípios da auto-sustentabilidade da cidade. É justamente o conceito da auto-sustentabilidade do aglomerado urbano que está em jogo. De um lado se destrói o tecido verde (qualidade de vida); de outro se incrementam os níveis de contaminação do ar (comprometendo a saúde).

 

Foto ao lado feita por satélite em 1991: São Paulo densamente urbanizada e poluída (o roxo indica contaminação do ar). O Rodoanel exacerbará esse quadro patológico

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