JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA

 


 
 




 

 

 

 

 

Ambiente

Shopping na Cantareira
progresso indesejável

Desde o início das obras, moradores da Serra rejeitaram a construção de centro comercial nos limites de área de preservação permanente 

Texto e fotos: Isabel Raposo e Celso Heredia

100% de desmatamento. Como pôde?

Área do centro comercial 

Em 1997, ao se iniciarem as obras de um centro comercial  na avenida José Gianesella, no entorno do Parque Estadual da Cantareira, muitos moradores da região protestaram. Esta área de 7.000 m2 localiza-se em terreno do loteamento Parque Imperial. Na planta inicial destinava-se a um pequeno  comércio exclusivo dos moradores do loteamento. No entanto, esse conceito foi alterado, a área foi inteiramente desmatada e ali começou a construção de 23 lojas de um empreendimento então denominado Centro Comercial e Empresarial Imperial. Logo ficou conhecido como shopping “Al Al”. Segundo os empreendedores, a obra teria toda a documentação legalizada e aprovada pela Secretaria Estadual do Meio ambiente. Não se sabe como, já que o terreno está a 14 metros do Parque.


Conseqüências e riscos desconsiderados


Os moradores da região nunca foram consultados, e as propagandas iniciais diziam que o centro comercial vinha para resolver problemas desses moradores, que teriam tudo ao seu alcance em poucos minutos. No entanto, tal propaganda foi sobretudo veiculada em São Paulo. Aliás, os moradores da Cantareira têm sido alvo dos comerciantes devido à crença em seu "alto poder aquisitivo". Mas ninguém leva em consideração os reais desejos dessas pessoas que buscaram a Serra exatamente porque queriam fugir do burburinho e que têm hábitos e fornecedores dos quais certamente não querem abrir mão.  O engenheiro Tomas Schaeffer, morador da Serra há mais de vinte anos, faz algumas considerações a respeito do shopping.

A seguir, alguns itens focalizam aspectos delicados desse embate que os moradores da Serra vêm travando -- e não é de hoje -- com os chamados investidores que aqui procuram se instalar a pretexto do bem comum dos habitantes da região da Cantareira. Os idealizadores do posto de combustíveis no alto da serra, que foi embargado e hoje faz parte do passado, são um exemplo. Assim, pense no seguinte:
 1. É impossível mesclar o privilégio de ter ar puro, silêncio, natureza na sua forma primitiva, com atividades típicas de núcleos urbanos.
2. Existe sempre um " preço " a ser pago, que neste caso é muito baixo, quando se quer viver isolado. Por exemplo: abdicar da suposta comodidade de ter o "pão quente" todas as manhãs, esteja ele a 1 km (Parque Imperial) ou a 4 km destes 3.Um bom forninho resolve satisfatoriamente  esse desejo por " pão tente ". Além disso, a maioria passa por inúmeras e boas padarias no caminho de casa. Por que iria se desviar de sua rota?
4.Embora a valorização do próprio imóvel, penso eu, não seja o principal objetivo de quem reside na Serra, será inevitável a desvalorização das propriedades nas áreas próximas ao centro comercial, como próprio Parque Imperial, Jardim da Montanha e mesmo o Parque Petrópolis. A Serra tem se caracterizado como área estritamente residencial. Se a atividade comercial ganhar espaço por aqui, em médio prazo os preços de mercado podem desabar, porque o verdadeiro valor do que existe na Serra desaparecerá.
5. Esta região não dispõe de infra-estrutura de acesso, pois as estradas são estreitas, em particular a José Gianesella, onde está construído o centro comercial, e sem condições de alargamento, já que do outro lado está a Reserva Florestal (Parque Estadual da Cantareira). Estamos falando de uma área localizada a mais ou menos 20 m da Reserva. Então, como fica a famosa área de  entorno das Reservas, cuja legislação é tão rigorosa? Alega-se que o centro comercial  está em nível inferior ao da Reserva (a jusante?). Será que isto é argumento?
6.O movimento de veículos será, no mínimo, dez vezes maior do que o já existente – e que já é muito. Além dos freqüentadores e dos que trabalharão no centro comercia, existirão os vendedores, que deverão vir no mínimo duas vezes até tirar o pedido; os empregadores e cobradores; manutenção dos prédios: instalações elétricas, e hidráulicas e outras. Desnecessário elencá-las. Existirão os que trabalharão nas lojas e que, em sua grande maioria, dependerão de transporte, coletivo ou não. As kombis de lotação já começaram a chegar na Serra. A tendência é aumentar; virão clientes de São Paulo, congestionando ainda mais essa pequena estrada que hoje mal dá conta do tráfego em feriados e finais de semana.  
7.A maioria dos veículos utilizados conforme o item 4, não possui catalisador e, como qualquer veículo, é na subida da Serra (sob esforço) que emite a maior quantidade de gases poluentes.
8. A mão-de-obra para serviços mais simples, como ajudantes, faxineiros e outros provavelmente não terá condições de arcar com as despesas de transporte, o que poderá resultar na decisão de morar na Serra. Com isso poderão surgir pequenas vilas ou mesmo proliferar as invasões em áreas de preservação, áreas verdes, ao longo dos córregos como tem acontecido em áreas públicas do Estado e da Prefeitura.
Hoje já existem vários exemplos no Parque Petrópolis e no Jardim Samambaia. Alguns sob o beneplácito do poder público municipal.Vamos supor que  os " negócios " no centro comercial não se desenvolvam como o esperado pelos empreendedores e lojistas.
9. A mão de obra mencionada no item 6 poderá ficar desempregada, pois a Serra não tem capacidade de absorvê-la. Conseqüentemente  essa falta de trabalho poderá gerar problemas sociais e criminais. Desnecessário mencioná-los.
10. A região onde está instalado o centro comercial terá quantidade de água necessária para absorver toda essa massa de pessoas? E o sistema de esgoto, efluentes e fossas serão eficazes? A propaganda veiculada em jornais da capital dizia que sim. Só o tempo irá confirmar. A realidade em outras áreas, porém, vem demonstrando que mesmo com fiscalização e, como acontece em alguns estabelecimentos comerciais implantados a despeito de tudo, as medidas punitivas limitam-se a multas irrisória; quanto às exigências, são simplesmente desrespeitadas.
11. O lixo gerado sobretudo pelos “fast foods”provavelmente provocará cheiro nas proximidades, podendo atrair moscas, ratos e baratas, assim como os animais da Reserva, o que já ocorre com o lixo residencial, embora em menor escala  e ainda passível de controle se houvesse vontade política e um mínimo de consciência ambiental por parte do poder público e da população. Nesse item vale destacar o seguinte: ultimamente a Serra tem sido invadida por moscas, numa quantidade já quase incontrolável. Uma das causas é o aumento da ocupação , do  lixo e dos churrascos que acontecem em número cada vez maior.
12.
O  excesso de iluminação próximo à Reserva irá interferir em seu ecossistema, gerando desequilíbrios cuja conseqüência só o tempo irá revelar. Os postes de luz já estão lá. 
13.
Será mais intensa a interferência predatória em relação aos animais silvestres. Como não há nenhuma sinalização indicando a travessia desses animais, com o aumento de veículos, e muitos transitam em velocidade acima do nível de segurança, esses animais, que já são vítimas de atropelamentos ficarão ainda mais vulneráveis. Há sempre um bichinho atropelado na estrada, e sua diminuição é significativa. A tendência é desaparecerem, desequilibrando-se ainda mais gravemente o ecossistema deste trecho da Cantareira.
14. Enfim, a abertura do centro comercial será um marco. Do início do fim. Porque, depois de lutarmos durante anos para que esse tipo de progresso duvidoso não atingisse esta região, a Serra da Cantareira não se diferenciará em nada da vida e dos problemas da cidade.
Soma-se aqui a grande ameaça do Rodoanel. Será o fim da Serra da Cantareira, de como ela sempre foi considerada: um local onde o progresso não havia atingido níveis que comprometessem a qualidade de vida almejada pela maioria dos que aqui vieram morar. Um local preservado, tão perto e tão distante do centro de São Paulo. De nada adiantarão as barreiras formadas pelas matas, se do lado de dentro da Serra a consciência de sua preservação  está perdendo para a especulação.
O centro comercial será de certa forma a continuidade de toda a área comercial da vila Albertina ligando-se ela cada vez mais intensamente pela estreita estrada que só não se desenvolverá porque passa dentro da Reserva. Isto, até que algum insano chegue ao poder diante do nosso silêncio alienado, conformado, temeroso ou conivente. É um crime o que está sendo feito na Serra da Cantareira, não apenas como morador da região, mas como ser humano consciente de sua importância como uma das últimas Reservas da mata atlântica. A Serra da Cantareira, a maior floresta urbana do mundo, pouco a pouco está sendo desfigurada pela ocupação excessiva e inconsciente. Temo pelo seu destino. Se esse tipo de progresso continuar, vamos nos tornar um Alphaville; é só uma questão de tempo. O precedente já foi aberto.

Irregularidades e transtornos

Os problemas elencados por pelo  engenheiro Tomas Schaffer mostram o que virá depois. Durante as obras já tivemos de conviver com o aumento de veículos pesados, o que significou rápida deterioração do asfalto, mais fumaça e riscos de acidentes, porque todo mundo conhece as condições precárias em que circulam os caminhões.
Além disso, toda a área foi desmatada e quase inteiramente impermeabilizada. Nessas obras incluiu-se o fechamento de uma rua que ligava o Parque Imperial à Avenida José Gianesella, embora seja proibido o fechamento de vias públicas. 
Exatamente ao lado do centro comercial, em uma curva: quando chove, ali se forma uma grande poça, pois o muro obstruiu o curso natural das águas impedindo seu escoamento, e o acúmulo de água enfraquece o asfalto. Mais um risco nessa estrada estreita e sinuosa. Logo mais, qual será a solução para evitar acidentes com o possível entra e sai naquela curva. Lombadas? Sinaleiras? Semáforos eletrônicos? Novos obstáculos nesse trajeto que já teve por cenário um mágico pôr-do-sol.
Fique sabendo: seu pôr-do-sol foi substituído por por um centro comercial, num lugar que deveria ser protegido.
Com as fortes chuvas, o muro de arrimo já desabou por duas vezes. Felizmente não atingiu nenhum veículo. Mães com crianças indo e vindo da escola, coletivos e uma quantidade já significativa de moradores transitam nesse local onde antes o sol se deitava, mágico, por entre as árvores.