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Ambiente
Araucária angustifolia: a árvore do pinhão

 

Ao contrário do que se tem feito no Paraná e no Rio Grande do Sul, onde o desequilíbrio é tal que a araucária já quase desapareceu, em Gonçaves não. Longe dos olhos e da cobiça desmesurada, ela cresce livre sob o olhar dos mais sábios, aqueles que não matam quem os alimenta.

Nome científico: Araucaria angustifolia
Nomes populares: Pinho, pinheiro-do-paraná, pinheiro-brasileiro, pinheiro-caiová, pinheiro-das-missões e pinheiro-são-josé
Origem: América do Sul, Brasil


Araucaria é um gênero de árvores coníferas da família Araucariaceae. Existem 19 espécies no gênero, com distribuições altamentes separadas na Nova Caledônia (ali treze espécies são endêmicas), Ilha Norfolk, oeste da Austrália, Nova Guiné, Argentina, Chile, e centro-sul do Brasil.
A Araucaria angustifolia ou pinheiro-do-paraná (também conhecida pelo nome de origem indígena, curi) é a única espécie do gênero encontrada no Brasil.
É uma árvore de grande beleza. Tem a copa alta em formato de cálice e distingue-se de todas as outras árvores brasileiras pela forma original. Sua presença em uma paisagem lhe confere dimensões especiais.

No Sul e Sudeste do Brasil

No passado, antes que a lavoura de café e cereais se espalhasse pelas terras paranaenses e antes que os trigais cobrissem os campos gaúchos, sua presença era tão comum que os índios chamaram de "curitiba" (que significa "imensidão de pinheiros") toda uma extensa região onde ela predominava. E a palavra acabou imortalizada, denominando a capital do Paraná.

Presente no planeta desde a última glaciação - que começou há mais de um milhão e quinhentos mil anos, a araucária, segundo o engenheiro florestal Paulo Carvalho, da Embrapa de Colombo, PR, já ocupou área equivalente a 200 mil quilômetros quadrados no Brasil, predominando nos territórios do Paraná (80.000 km²), Santa Catarina (62.000 km²) e Rio Grande do Sul (50.000 km²), com manchas esparsas em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

É uma espécie resistente, tolera até incêndios rasos em razão de sua casca grossa que funciona como isolante térmico. Tem alta capacidade de germinação que chega a 90% em pinhões recém-colhidos. Árvore de grande porte, atinge cerca de 50 m de altura, e seu tronco pode medir até 8,5 m de circunferência. Seu fruto, a pinha, contém de 10 a 150 sementes - os famosos pinhões - deliciosas e nutritivas, servindo de alimento a aves, animais selvagens e ao ser humano.

Cresce em solo fértil, em altitudes superiores a 500 mts e atinge bom desenvolvimento em 50 anos.Espécie pioneira, dissemina-se facilmente em campo aberto. Seu formato é bem peculiar:o tronco ergue-se reto, sem nenhum desvio, e se ramifica apenas no topo, formando uma copa peculiar, com os ramos desenvolvendo-se horizontalmente, as pontas curvadas para cima; superpostos uns aos outros, compõem vários andares. Logo abaixo da copa, nos pinheiros mais antigos, aparecem às vezes alguns tocos de ramo, quebrando a simetria característica. É planta dióica, isto é, suas flores - masculinas e femininas - nascem separadas, em árvores diferentes. Assim, um pé de Araucária angustifolia possui inflorescências (chamadas estróbilos) somente masculinas ou somente femininas.

Ao contrário do que se pensa, as pinhas usadas nos enfeites de Natal não provém das matas de araucária, mas de espécies introduzidas no Brasil há pouco, pertencentes ao gênero Pinus. Na maturidade, apinha da araucária se desmancha soltando os pinhões e as escamas murchas. Quando chega a época da reprodução, o vento transporta o pólen das inflorescências masculinas para as femininas. Uma árvore feminina produz uma média anual de 80 inflorescências, cada uma com cerca de 90 pinhões.

Árvore generosa

A Araucária angustifolia é uma árvore generosa. Pode-se dizer que oferece tudo de si: desde a amêndoa, no interior dos pinhões, até a resina que, destilada fornece alcatrão, óleos diversos, terebintina e breu (usados na indústria). Ricas em amido, proteínas e gorduras, suas sementem são de grande valor nutricional. É comum ver bandos de pássaros, principalmente periquitos e papagaios, pousados nos galhos das araucárias, bicando as amêndoas. E serelepes, que inclusive contribuem para a sua propagação, já que costumam enterrá-las (e da maneira correta para brotar, com a ponta para baixo). A madeira, por sua vez, pode ter várias aplicações na construção, na fabricação de palitos fósforos e ainda fornece uma pasta de celulose utilizada na indústria do papel. Sua madeira serviu até como mastros em embarcações; em aplicações rústicas, os galhos podem ser apenas descascados e polidos, transformando-se em cabos de ferramentas agrícolas. Este, na verdade, é seu único uso sustentáavel...

Desde os índios

A semente da araucária, o pinhão, é sem dúvida muito nutritiva. Pesquisas históricas e arqueológicas sobre as populações indígenas que viveram no planalto sul-brasileiro, de 6000 anos até os nossos dias, registram a importância do pinhão no cotidiano desses grupos. Restos de cascas de pinhões aparecem em meio aos carvões das fogueiras acesas pelos antigos habitantes das matas com araucária. Um depósito de restos de pinhões no meio de uma espessa camada de argila evidencia não apenas a existência do pinhão na dieta diária dos grupos, como também uma engenhosa solução para conservá-lo durante longos períodos, evitando o risco de deterioração ou do ataque de animais.
Sabe-se que o pinhão servia de alimento para inúmeras espécies animais, inclusive caititus selvagens (espécie de porco), atraindo-os durante a época de amadurecimento das pinhas. Assim, ao lado da coleta anual do pinhão, os indígenas os caçavam.

Um ecossistema sob risco de extinção, mas poucos se dão conta

Uma enorme diversidade de animais, desde grandes mamíferos até os menores invertebrados, vive na floresta de araucárias - e depende dela. Quando os pinhões amadurecem, a fartura de alimento altera toda a vida na mata. A gralha-azul, por exemplo, que utiliza a araucária para fazer seu ninho, esconde seu alimento no oco dessas árvores. Já o macaco bugio e o ouriço são dotados de uma curiosa habilidade: debulham cuidadosamente as pinhas que guardam os pinhões. O que sobra é aproveitado por besouros, formigas e uma infinidade de insetos.

Suas sementes, os pinhões, que já eram importantes na alimentação indígena, ainda hoje inspiram muitas receitas. Medem cerca de quinze milímetros de largura na parte mais larga e cerca de dez centímetros de comprimento. As pinhas pesam vários quilos e podem atingir o diâmetro de aproximadamente trinta centímetros.

Os pinheirais formam um ecossistema denominado floresta ombrófila mista, que integra o bioma da Mata Atlântica. A copada majestosa das araucárias, voltadas para o céu a cinqüenta metros de altura, lhe confere um desenho característico. Canelas, imbuias e cedros formam um segundo extrato que cobre sub-bosques de erva-mate e xaxim. A fauna original tinha onças, bugios, cotias, catetos e a gralha-azul, pássaro que dispersa o pinhão, essa deliciosa semente do pinheiro.

Mas a araucária, que já compôs extensa formação nos estados do centro-sul do Brasil, está hoje corre hoje o risco de se extinguir. Se antes da presença dos colonizadores suas florestas ocupavam mais de metade da região dos Estados do Paraná e de Santa Catarina, hoje restam apenas fragmentos que, somados, não atingem 1% da área original. A maioria dos remanescentes se encontra em áreas particulares de indústrias madeireiras. Estão ameaçados por assentamentos de sem-terra ou ilhados por plantações de pinus e soja. No ano passado, o governo federal aprovou a inundação do lago da hidrelétrica de Barra Grande (da Alcoa), na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul. O lago vai inundar um vale com um dos últimos remanescentes das florestas de araucárias. As famosas "medidas mitigatórias" estão prometidas, mas como tem acontecido em outras questões que envolvem a preservação ambiental, certamente não sairão do papel.

A araucária é árvore símbolo do estado do Paraná, da cidade Curitiba e de Campos do Jordão, no estado de São Paulo. Mas, apesar de sua importância e do estado grave de ameaça, há poucas unidades de conservação para esse ecossistema. Os parques nacionais de Aparados da Serra (RS) e do Iguaçu têm pequenas áreas de florestas com araucárias que, no total, não
chegam a 3 mil hectares.

Ao contrário do que se tem feito no Paraná e no Rio Grande do Sul, onde o desequilíbrio é tal que a araucária já quase desapareceu, em Gonçaves não. Longe dos olhos e da cobiça desmesurada, ela cresce livre sob o olhar daqueles que não matam quem os alimenta.
E precisa continuar assim.

Fontes principais: www.jardimdeflores.com.br/floresefolhas/A20pinhao.htm e Wikipédia.

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