JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA

 


 
 




 

 

 




 

 

 


Viagem

Paixão por Gonçalves
Texto e fotos: Isabel Raposo

  Gonçalves vista do morro do Cruzeiro


Foi assim: de imediato, puro encantamento. Pelo verde das montanhas infindáveis e araucárias em profusão, pelo som das cachoeiras, pela atmosfera de sol e azul. Pela luz. Um dia antes eu sequer havia ouvido falar de Gonçalves.

Minha paixão, porém, não é a única. Encontrei pessoas que também foram arrebatadas e hoje vivem ali. Supervivem, como diria um amigo baiano. Não que seja o Paraíso, porque este ainda ninguém encontrou. Mas beira.
Sônia e Sergei do Porto do Céu, Oswaldo do Montanhês, Maristela e Carla dos Orgânicos da Mantiqueira, Silvana da Pousada do Rio, as Senhoras das Especiarias, o Bob das trutas, Neusa e Adriano, do Deméter na Roça. Todos vindos de São Paulo: criativos, inteligentes. Felizes. Histórias diferentes de mudanças radicais, aptidões diversificadas, mas no mesmo rumo.
Então vamos a Gonçalves. Aninhada na Serra da Mantiqueira, pouco depois da divisa de São Paulo com Minas Gerais, esta pequena cidade sul-mineira (tem 5000 mil habitantes) é de uma tranqüilidade invejável: poucos carros nas ruas, nada de poluição. Ao entardecer, o sol desce até o cenário mágico das florestas, dourando esse tesouro. Dos mirantes naturais, como a Pedra Chanfrada, a Pedra do Forno e no Cruzeiro vê-se a região por inteiro; e no meio do verde, muitas cachoeiras e trilhas. É bom demais caminhar por ali, apreciando o canto dos pássaros, pensando na vida ou, o que é melhor, sentindo no rosto o sopro da felicidade.
Está a 180 Km de São Paulo, quando se vai pela Fernão Dias (com 30 km de estrada de terra bem cuidada a partir de Cambuí); outro caminho é a Dutra, são 230 km de asfalto. Localizada a 1350 m de altitude e com pontos que chegam a 2050 m, dispensável dizer que Gonçalves é ainda mais especial no outono e no inverno. Sua paisagem tem a exuberância da amplidão dos topos, de onde o olhar se enrosca na linha que ondula o horizonte.
No entanto, por seu relevo e cenário, Gonçalves não fica na mesmice do puro sossego. Como é cortada pelo ribeirão Campestre e pelo rio Capivari, quem adora esportes radicais se depara com bons desafios nos penhascos e cachoeiras. Pode praticar trekking, montanhismo, rapel, cannoing, bóia-cross, rafting. Quem gosta da noite se reúne em alguns pontos de encontro, para um bate-papo com boa música e excelente cardápio. Embora o centro seja pequeno, o município se alarga em bairros distantes, alguns de inédita nomenclatura, como São Sebastião das Três Orelhas, e outros que herdaram o nome de seus primeiros moradores, como os Venâncios. Cada um tem uma data festiva, e as tradicionais comemorações se multiplicam pelas comunidades rurais. Desse modo, a cidade vive quase sempre em festa. E nos atalhos, restaurantes inesperados, com fogão a lenha que encanta e aquece, como o Truta Queda d’Agua, de Bob Marinho, que de quebra tem uma cachoeira bem pertinho da entrada.
Gonçalves possui características humanas e ambientais especiais. Está em Área de Preservação Ambiental, é formadora de bacias, tem relevo acidentado, florestas remanescentes da Mata Atlântica, temperatura subtropical que chega a 30º no verão. E é dona de um dos melhores climas de montanha do mundo.

Montanhas mágicas

Até bem pouco Gonçalves nem existia nos roteiros de viagem. Mas, suavemente, como deve ser, seus encantos e sua magia estão sendo revelados. Em particular na temporada de inverno, quando a temperatura chega a -7º. Isto mesmo: menos sete e, às vezes, dez graus negativos. De clima seco e céu azul constante, o outono é frio à noite e agradavelmente tépido pela manhã; no inverno, muito sol e pouco vento, o que é bom, senão seria uma sensação frio “novaiorquina”... Graças a Deus, estamos em Minas. E em Gonçalves! Mas ali a lareira é indispensável, e curtir um bom vinho à beira do fogo é um prazer que não se esgota.

Para os musicais e os comilões

Por isso e por tudo o mais, a cidade tem como marca registrada pousadas intimistas e quase exclusivas, restaurantes charmosos e originais, com culinária de primeiríssima. Todos se abastecem com produtos orgânicos cultivados ali, e há os que dispõem de plantações próprias. A cidade ainda tem artesanato em madeira e lojas com produtos da região. Entre as pousadas, a do Montanhês está em local ainda mais privilegiado, no bairro Sertão do Cantagalo, a 1750 mts, considerado o local habitado com maior altitude no Brasil. Mesmo porque, "pela Lei, é proibido construir a partir de 1800 mts", informou Oswaldo Barbosa, seu proprietário.
A tradição da culinária caipira é forte em Gonçalves, com restaurantes onde, de fato, se cozinha no fogão a lenha e quitutes caseiros, típicos de Minas, irresistíveis. Entre eles estão os doces em calda de dona Jovina, que há 23 anos começou a preparar receitas com as frutas do quintal. A quantidade era tamanha que Jovina passou a vender suas delícias e não parou mais; ainda hoje, faz e vende tudo em casa.
Alimento tradicional e abundante desde abril até agosto, o pinhão está em todas as mesas, sob as mais diversas formas. Surge reluzente e macio em saladas e refogados, em uma culinária caipira com toques mais sofisticados, como a de Neusa Sarto no restaurante Deméter. A culinária local não torce o nariz para novidades.
Já no Porto do Céu, dos paulistanos Sergei Kotolevzev e Sônia Sarto, um bistrô com música ao vivo e sessões de jam exclusivas, vive-se em clima de arte. Além do restaurante com massas artesanais e pizzas no jantar, sob o comando de Sergei (o melhor capelletti com ricota e nozes ao molho de funghi secchi que já provei foi ele quem preparou), ao lado funciona a criativa marcenaria onde também se faz uma releitura de móveis antigos, o hobby diurno desses dois taurinos festeiros e agregadores. O Porto do Céu funciona nos finais de semana e feriados, "das 20hs até o caldo da madruga", informa a placa na entrada.
No centro da cidade, em frente à Igreja matriz, o Bar do Marcelo é parada obrigatória. Tem de um tudo, desde produtos da região a uma variedade enorme de cachaça (mais de 380 rótulos) e uma coleção de miniaturas. Bonito de ver e permitido comprar. Marcelo também serve um imbatível café expresso orgânico.
Quando se chega ao centro de Gonçalves, uma casa pintada em terracota chama a atenção, sobretudo por sua placa: A Senhora das Especiarias (na verdade são “as senhoras”, duas amigas que deram uma guinada na vida e também trocaram São Paulo por Gonçalves). Ali funciona um laboratório de geléias exóticas, como hortelã com abacaxi, de cachaça, pimenta com gengibre e alfazema, ou com alecrim. São mais de 100 e preparadas com produtos naturais e açúcar orgânico; os pãezinhos para degustá-las também saem de sua cozinha fumegante e tomada de aromas.

Para os aventureiros

Além das trilhas que serpenteiam por entre as matas, correm as cachoeiras e se erguem grandes pedras. Entre as cachoeiras mais atraentes estão a do Cruzeiro e do Retiro, esta formada por corredeiras e poço para banho; a Cachoeira do Simão, com queda de 7 metros de altura divididos em dois seguimentos que chegam a uma ampla piscina; Cachoeira dos Martins, onde os 100 metros de corredeiras circundadas pela paisagem são cenário para os praticantes de cannoing e tirolesa; ou para banhistas. O bóia-cross é outra opção de divertimento radical no rio Capivari, com corredeiras fáceis e quedas de até 4 metros de altura; no Ribeirão Campestre o nível de descida é mais avançado.
Em terra, há o trekking para a Pedra do Forno, um dos pontos mais altos de Gonçalves. De lá se tem uma vista de 360º da região, que alcança Campos do Jordão, Monte Verde, Pedra de São Domingos e a Pedra do Baú. Já o trajeto para a Trilha do Campestre, que contorna a montanha também chamada Campestre, passa por um bosque de samambaias e araucárias e atinje o topo, mas deve ser feito com guia e exige bom preparo físico. O passeio para a Pedra de São Domingos, com 2050 metros de altitude, também oferece uma vista de 360º da Serra da Mantiqueira; e quem quiser, pode praticar rapel na Pedra da Catedral.

Agricultura orgânica

Outro diferencial de Gonçalves é a agricultura familiar orgânica. Diferente do que acontecia nos velhos tempos, quando ali predominavam as plantações de tabaco e os defensivos, há seis anos os agricultores preocupam-se mais em preservar suas terras, matas e nascentes, buscando a diversidade de culturas assim como uma nova relação entre os indivíduos e o alimento. Passaram a produzir alimentos orgânicos, sem agrotóxico ou adubo químico, utilizando métodos que não agridem a natureza. Uma boa variedade de frutas, legumes e hortaliças floresce sem esgotar a terra. Tudo fiscalizado segundo normas específicas e com certificado do IBD (Instituto Biodinâmico). Há o controle de produção e de comercialização. Boa parte das colheitas é reunida em um entreposto - que também funciona como sede da associação de produtores - coordenado por Maristela Canepelle e Carla: “Orgânicos da Mantiqueira”. De lá chega aos consumidores e até mesmo a revendedores exclusivos em São Paulo. Tudo embalado e sempre
acrescido de um pequeno informativo, que inclui receita com algum dos produtos daquela cesta e dicas de preservação ambiental. Mais do que distribuição, ali se produz consciência. Com carinho pelo ofício e pela terra. Para ver mais, clique na foto.
 
Gonçalves está no caminho exemplar da autossustentabilidade, no seu sentido mais verdadeiro. Mesclando as benesses da montanha e do campo, reunindo gente "sangue bom" e boas cabeças, esta região caminha com passos seguros em seu destino: turismo rural e ecoturismo. Mas requer muito mais do que desejo de paz e disposição. Gonçalves pede para se chegar ali amorosamente.
Há muito o que ver e o que fazer nessa região privilegiada, onde quero voltar e voltar...

 

 

 

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Onde ficar
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Pousada O Montanhês
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Pousada do Rio
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Solar d' Araucária
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Pousada Trem das Cores
Pousada Passaredo

Onde comer
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Bistrô Porto do Céu
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Deméter na Roça