JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA



 





 

 

 



 

Carta

Aqui vai um grande debafo:

Lendo o artigo do Jornal da Serra sobre a construção de um shopping na Cantareira fiquei
estarrecida. É lamentável, não pela construção de uma área comercial e de serviços, que poderia ser num espaço promissor, mas por se tratar de local inapropriado para tal uso, com prejuízo ao seu entorno, propenso, é claro, ao consequente desmatamento!

Por esses dias fui ao centro de Mairiporã pela SP-23, a partir de Franco Rocha. Confesso que não gostei nada do que vi, embora o percurso já me fosse familiar e não fazia tanto tempo assim que eu o havia feito. Nessa incursão pude observar, a começar pela Fazenda Juquery, fazenda pública, em Franco da Rocha, nas suas bordas com a estrada, a ocupação popular e irregular, em ritmo assustador. Logo alí, nas terras do Juquery, situada ao lado da antiga 4ª Colônia do Hospital, no Vale do Itaim, onde o reservatório de água que abastecia toda Fazenda hoje está nas mãos da Sabesp...

"A fúria irriquieta do assentamento humano"

Na medida em que eu percorria a estrada, pude ver a fúria irrequieta do assentamento humano, que se esparrama pela serra, agora polvilhada de construções. No mínimo é um alerta! Nem preciso dizer que é preocupante o cenário que se descortina.

O que fazer, se os órgãos públicos fomentam essa situação, como deixa claro o referido artigo, sobre a construção de um shopping na Cantareira? No mínimo nossos representantes políticos agem por conveniência e por cumplicidade ao permitir que essa barbariedade aconteça.

O Sistema Cantareira, que abastece de água mais de 50% da Região Metropolitana de São Paulo - RMSP, se ficar refém dessa ocupação desordenada e contínua, veremos em breve o Reservatório do Juquery seguindo os passos das represas Billings e Guarapiranga. É isso que se quer? Os ávidos pelo "poder" parecem nem pensar nisso, a não ser em vantagens e mais vantagens... ora, pois!

Assim, esvai-se a natureza dessa região rica em cerrado e em mata atlântica, exemplar único e remanescente na RMSP, sendo escorchada pelo desmatamento com seus mananciais ameaçados e suas águas a caminho de um grande ralo!

A vida humana, por sua vez, fica comprometida, não há dúvida sobre essa matéria. Pelo visto teremos que aprender pela dor, pois certamente a natureza se rebelará, e o tempo
anunciará fortemente a escassez da água. E aí a conversa será outra, pois sem água não há vida! Não é não? E rezar pela chuva não nos parece um bom negócio.

Posto isso, pergunto-me desolada: pra que serve um Shopping na Cantareira???

Iná Rosa - arquiteta
Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela FAU USP
e pesquisadora da Região de Juquery