JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA

 

 
       




 

 

 
 

 

 

Hotelaria


Solar das Andorinhas: um hotel com muita História para contar
Texto e fotos: Isabel Raposo

Fachada da Casa Grande


Autêntica fazenda colonial do século 18, o Solar das Andorinhas dá as boas vindas no melhor estilo: logo na entrada uma tabuleta afirma que “este chão é abençoado, serão felizes todos os que aqui pisarem, porque o meu sinhô era bom”. Quem assina é a escrava Clemilda, que morreu aos 120 anos, em 1956. Certamente ali e, óbvio, não mais como escrava.
Esta frase iluminou minha chegada ao casarão colonial, enorme, puro, pleno de histórias – algumas conhecidas, outras perpetuadas no silêncio de suas grossas paredes.
De tudo brotam as energias de outros tempos e ecoam em nosso presente. Emociona chegar, encher os olhos com o branco e o azul que imperam na fachada, com as cores da terra e com a elegância das palmeiras centenárias. Emociona saber que por ali passaram tantas vidas, viveram-se amores, mesclaram-se suor, lágrimas e risos.
A força da presença dos escravos, e a antiga Fazenda Duas Pontes (o nome com que foi criada) teve 80, não turva seus ares com pesadas lembranças de sofrimento, como ocorre em tantos outros lugares. Não. Ali a luz é permanente, e a atmosfera é leve. E promovem uma espécie de reverência e de muita curiosidade sobre a história não só do casarão, como das outras construções, algumas de influência italiana, já que os imigrantes também deixaram ali a sua marca.

Patrimônio Histórico
As edificações do Solar das Andorinhas estão preservadas e desde 1994 são tombadas como Patrimônio Histórico pelo CONDEPACC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas). A fazenda foi uma das maiores produtoras de café do Estado de São Paulo e hoje é um dos hotéis mais completos do Brasil, com 35 anos de atividade. São 240.000m² de área verde, muita paisagem e um complexo voltado ao lazer, com alta dose de cultura. Seu endereço: km 121 da rodovia que liga Campinas e Mogi-Mirim, a apenas uma hora de São Paulo.

A longa trajetória
A Fazenda Duas Pontes destacou-se na agricultura cafeeira da região, chegando a produzir cerca de 100.000 sacas ao ano.
Depois da abolição da escravatura os italianos assumiram o trabalho de plantar, colher e embarcar o café nas estações da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, cujos trilhos correm paralelos à fazenda. Quando parte de suas terras foi adquirida em 1971, pelo engenheiro Roberto Ceccarelli, ela já havia sido subdividida e passado pelas mãos de vários proprietários. Estava em ruínas. Ceccarelli e sua esposa Lúcia empenharam-se em restaurar as edificações, conservando seu estilo original e, pioneiramente, idealizaram ali um Hotel Fazenda, agora sob o nome poético de “Solar das Andorinhas”.
Os principais locais históricos construídos ao longo do tempo estão lá: as ruínas da senzala, a casa grande, com paredes de 80cm de largura, as casinhas dos colonos, a capela, a escultura de Cristo datada de 1806, a roda d’água, a casa de máquinas, onde está sendo reorganizado o museu. No jardim da entrada, palmeiras imperiais e um magnífico portão. Cada palmeira foi plantada para comemorar um novo ano de colheita, e o portão de ferro batido impunha os limites entre a casa grande o restante da propriedade. Estão lá também parte do calçamento das antigas estrebarias, as ruínas da serraria e do moinho de fubá, o caramanchão – ou namoradeira – aquele mesmo, do tempo em que o namoro se dava sob estrita vigilância. Cheio de simbologia. E ainda continuam lá folhas dos livros de contabilidade da época dos italianos, escritas com caneta de bico de pena e intactas. Inesperadamente, entre outras preciosidades – num canto da casa de máquinas – cartas emolduradas de Mário de Andrade para Lúcia Fanele Ceccarelli. Ela havia sido sua aluna e se corresponderam entre 1935 e 1944. Dona Lúcia foi proprietária do Solar das Andorinhas até julho de 2006, quando morreu aos 97 anos.
... E enfim, a cozinha dos escravos. Mágica! É ali que os hóspedes hoje tomam café, fazem amizade, trocam idéias. As paredes conservam a fuligem dos velhos tempos (não podem ser pintadas, devido ao tombamento como Patrimônio Histórico e Cultural). O contraste com todo o resto pega fundo. No centro, o mesmo fogão de enormes bocas e as vasilhas de ferro onde se cozinhava a comida dos escravos. A atmosfera é misteriosa, sobretudo à noite, na hora do chá – uma deliciosa fusão de ervas colhidas na fazenda e preparadas por Aracy e Lu – sorvido em pequenos goles ao sabor de histórias e mistérios da fazenda. Foi parada obrigatória para mim.
Após a morte de Lúcia Ceccarelli, o hotel passa por uma reestruturação, mantendo, porém, como prioridades o bem-estar de seus hóspedes e a própria história, instigante, impregnada nas paredes e nas terras do Solar.

Apoio Pesquisa: Sandra Carazza

 
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