JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA

 

 
       




 

 

 

 

 

Carta

Sobre a picaretagem da tal "restauração" da Mata Atlântica

 

MATA ATLÂNTICA: DESMATOU, ACABOU! 

Trecho do livro “A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica” do historiador norte-americano Warren Dean, página 249 (Ed. Companhia da Letras, 2004), sobre o botânico sueco Alberto Löefgren, que no início do século passado ajudou a criar o “Serviço Florestal e Botânico” em São Paulo (que mais tarde daria origem ao Instituto Florestal) e teve forte influência na criação de unidades de conservação e instituição do dia da árvore no Brasil*.


Foto: Loteamento Alpes da Cantareira - Restos de Mata Atlântica na Serra da Cantareira, que continua sendo irresponsavelmente devastada.

"O que era apenas vagamente compreendido, ou relutantemente admitido, por conservacionistas como Löefgren, é que a restauração da Mata Atlântica era mais ou menos impossível. Como Löefgren bem
sabia, muitos fazendeiros permitiam que parte de suas fazendas permanecesse como mata, não apenas para exploração futura como também como reserva de madeira.
Delas retiravam madeira na medida em que precisavam ou encontravam mercado, mas não conseguiram manejá-las (explorá-las de forma sustentável) como ouviam dizer que se fazia na Europa ou na América do Norte, porque, ao contrário dos bosques daqueles climas frios, essa floresta não era composta de maneira uniforme por umas poucas
espécies resistentes, de crescimento rápido, sem complicações quanto à polinização, dispersão e frutificação, sem grandes requisitos nutricionais (simbioses complexas com fungos) e, em sua maioria, mais competitivas que cooperativas com o resto dos habitantes da floresta. Recriar uma floresta de pinheiros no norte (coníferas) ou de árvores latifoliadas exigia pouco manejo; recriar a Mata Atlântica teria exigido quase onisciência (todo o conhecimento) e uma existência que durasse séculos. Os terrenos de madeira, mesmo os dos mais prudente dos fazendeiros, gradualmente se deterioravam, portanto – as madeiras mais nobres eram retiradas uma a uma, e o dossel se tornava mais aberto já que outras árvores jovens eram esmagadas com a derrubada das mais velhas. Por fim, quando brotavam árvores e cipós inúteis, esvanecia-se
a finalidade do terreno, a faixa era queimada e plantava-se café, milho ou capim de pasto". (...)

*Observação: o dia da árvore (copiado dos EUA) foi comemorado aqui pela primeira vez em 1902, em Araras (SP) e tinha o propósito de valorizar a Mata Atlântica, isto é, chamar atenção sobre os desmatamentos. Depois esta idéia original foi deturpada, como sabemos.

Germano Woehl Jr.
germano@ra-bugio.org.br